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Filosofia e Teologia: tensões e convergências de uma busca comum

Filosofia e Teologia: tensões e convergências de uma busca comum

Wolfhart Pannenberg

A questão das relações da ciência e da filosofia com a fé, colocada inicialmente há mais de dois mil anos, no confronto da tradição judaico-cristã com o helenismo, constitui até hoje um problema central na evolução cultural do Ocidente. 

A obra de Pannenberg ora publicada em português tornou-se um dos clássicos mais autorizados na atualidade, não só em si mesma, pela precisão dos esclarecimentos históricos que lhe sustentam a tese, como pela convergência que deixa transparecer com as soluções dos mais eminentes teólogos católicos que estudam essa matéria, a começar por Joseph Ratzinger, hoje bispo de Roma, com o nome de Bento XVI. 

Depois de haver colocado claramente o problema em suas diversas facetas, na introdução e nos primeiros capítulos, Pannenberg acompanha historicamente sua evolução, desde o cristianismo primitivo, através da Idade Média, e estuda com relativa profundidade a problemática moderna, a partir de Descartes e Kant, até os diversos filósofos contemporâneos. 

Sua tese é de que, na elaboração da teologia a partir da Bíblia, não se pode fazer economia de uma reflexão filosófica, sob pena de se cair no fundamentalismo ou na impossibilidade de resolver as questões fundamentais para as quais todo ser humano, em todas as culturas, procuram respostas, senão evidentes, pelo menos coerentes e convincentes. Dessa forma a teologia, por razões antropológicas, não só depende da filosofia como constitui um aporte que reforça a reflexão filosófica e lhe permite se aproximar do desejo de compreensão do mundo que está origem de toda filosofia, desde os tempos dos gregos. 

Explora ao máximo o princípio de que é o discurso sobre Deus na origem de toda explicação do mundo que constitui o ponto de encontro crucial entre teologia e filosofia. Como diz, a razão concreta mais importante para o envolvimento da teologia cristã com a filosofia foi, originalmente, e ainda hoje é, a doutrina cristã do Deus de Jesus de Nazaré como o Deus único e verdadeiro de todos os seres humanos. Com a palavra "Deus" não se faz referência apenas a um tema específico. Falar de Deus significava falar da origem criacional de tudo o que é real. Por essa razão não se terá pensado, realmente, a idéia "Deus" enquanto não se tiver concebido tudo o que é real - o ser humano e o cosmo - como tendo sua origem em Deus. 

Quando Deus e a totalidade do que é real não são pensados nessa conjunção e correlação recíproca, o falar sobre Deus torna-se uma palavra vazia ou uma concepção sem base concreta, que então está sujeita à crítica, ao ser interpretada, por exemplo, como antropomórfica, como produto da projeção religiosa. Quando se sabe o que se quer dizer com "Deus", não se pode mais pensar a realidade do mundo e do ser humano sem conceber Deus como sua origem, e inversamente só se pode pensar Deus de maneira a conceber, ao mesmo tempo, a totalidade do que é real como originada dele. 

É por isso que a filosofia, desde a época dos pré-socráticos, viu sua tarefa em pensar a realidade no todo, ou seja, na unidade do cosmo. Isso foi o correlato da pergunta filosófica por Deus. Até o passado mais recente - ou seja, até Nietzsche -, o tema abrangente da filosofia era determinado por essa correlação da idéia de Deus com o conceito do mundo. 

Filosofia e teologia têm um tema comum no empenho por uma compreensão da realidade do ser humano e do mundo em seu todo. É claro que se pode fazer tanto teologia quanto filosofia de muitas maneiras que ficam aquém dessa tarefa. Todavia a filosofia somente corresponde à sua longa tradição quando ela se propõe essa tarefa, e somente assim ela assume uma função, na qual ela não pode ser substituída por nenhuma das ciências individuais. 

A teologia, inversamente, só pode falar de modo competente de Deus e de sua revelação quando ela trata do Criador do mundo e do ser humano e, portanto, relaciona seu falar de Deus com uma compreensão total da realidade do ser humano e do mundo. Ao fazer isso, a teologia necessita da interlocução face a face da reflexão crítica e orientadora dos filósofos; e a filosofia não poderá, por seu turno, chegar a uma compreensão abrangente do ser humano no mundo sem levar em consideração as religiões e seu significado para a natureza do ser humano e para a constituição da totalidade do ser humano e do mundo a partir da realidade divina, que é tematizada pelas religiões. 

Em sentido complementar, ao fazer isso, a filosofia não precisa pretender substituir as religiões por uma teoria puramente filosófica de Deus. Mas mesmo que isso não ocorra, ainda restam tensões em quantidade suficiente entre a teologia e a filosofia, porque a teologia deve refletir o todo da existência humana e do mundo a partir de Deus e de sua revelação, ao passo que o pensamento filosófico parte da experiência do ser humano e do mundo e retrocede ao seu fundamento no absoluto. 

O sentido ecumênico da publicação da obra de Pannenberg por Paulinas é evidente, um ecumenismo, contudo, que brota do acordo fundamental sobre a forma da razão humana, em continuidade com a fé, buscar uma visão coerente do mundo e do ser humano, numa palavra, da vida.

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